terça-feira, 6 de abril de 2010

A panela de pressão













Dou por mim espectadora de uma conversa em que a frase é “ a empregada arranhou o fundo da panela, a minha filha quer que a despeça”. A discussão é acesa sobre as incompetências das empregadas e as vantagens e desvantagens de se ter uma cabeleireira a desempenhar a função. “ Partir, não parte nada, mas é tão lenta!” É verídico e aconteceu-me não há muito tempo numa daquelas conversas de circunstância em que eu me esforço mais por parecer interessada no que os outros dizem do que propriamente em acrescentar algo à conversa. Aquela frase ficou-me na cabeça, enquanto aqueles pés de microfone ficavam ali a dispersar-se acerca dos seus problemas de “esgotamento pós-empregada” eu ficava a conter-me entre o riso e o choro. O riso, pelo significado que atribuíam a uma simples arranhadela de panela. O choro, pelo significado que atribuíam a uma simples arranhadela de panela.
Não é estranho serem gastos milhões de euros e milhares de horas a tratar dilemas e frustrações quando até um episódio que envolve panelas e esfregões de cozinha serve para discussões elevadas à décima potência em que o único objectivo é encontrar um problema onde não o há? Nada estranho parece-me. Parece-me precisamente o contrário, que não são aqueles que passam por verdadeiros dilemas e traumas que formam a maioria dos amontoados às portas dos psicólogos ou psicoterapeutas. Quem passou por guerras ou catástrofes naturais é provavelmente quem aprende a enfrentar o infortúnio sozinho. Claro que não podemos pensar em tudo o que está de pior com todos à nossa volta mas fazer da falta de habilidade de uma empregada (que por si só já implica alguma sorte pelo menos a nível económico) um esgotamento nervoso também não é razoável.
Mais do que arranhada aquela panela foi a desculpa para um desabafo de auto comiseração de alguém que naquele momento não teve nada mais pertinente do que o alumínio.

Natacha Meunier

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Quatro paredes, Uma vida


Recentemente a minha vida sofreu uma ligeira mudança. As quatro paredes a que já me tinha acostumado, foram-me arrancadas num abrir e fechar de olhos. Pode parecer lírico mas neste caso a realidade quase que deixou de o ser pelo curto período de tempo. Aquele pedaço de cimento deixou de me pertencer como se nunca tivesse sido meu. A terra que me viu crescer em poucas horas viu-me também partir.
Dizem que as pessoas se prendem demais à casa onde vivem. Pode sê-lo em alguns casos, mas acredito que neste, e na maioria, não é ao espaço que se afeiçoam, é a tudo a que esse espaço já deu abrigo. A todas as pessoas que por ali já passaram, a todas as memórias que por ali ficaram. Não é o deixar uma casa que afecta as pessoas. Pedaços de cimento encontram-se por toda a parte. E sim, aí concordo com todos os que dizem que as pessoas dão demasiado valor a uma casa. É a mudança, a mudança de parte da nossa identidade que, ao contrário das posições mais positivistas, não têm sempre que trazer uma melhoria anexada à vida de quem muda.
Mudar não tem que ser sempre bom. Peço desculpa ao negócio multimilionário de livros de auto-ajuda que insistem em afirmar o contrário. Mas por vezes o que vem aí não é suficientemente bom para cobrir o que foi deixado para trás. Não estou a falar de perdas drásticas ou o texto seria de carácter bastante mais dramático mas mesmo assim cada perda é uma perda e é traduzida de maneira diferente de pessoa para pessoa. Para mim hoje, quatro paredes significam uma vida.

Natacha Meunier

terça-feira, 30 de março de 2010

Dom da Palavra














É tão bom ser quase cobaia desta invenção pós-moderna da livre utilização da palavra. Não só da sua utilização mas acima de tudo da sua publicação, da qual me assenhoro neste preciso momento.
Isto a propósito do contexto em que escrevo na condição de primeiro post. Venham as teorias extremistas e os prós e contras, mas a verdade é que os há em tudo. Não fosse haver um Nietzsche que nos lembrasse disso mesmo. Há, também, mais contras do que prós nos primeiros passos do que quer que seja. Não são assim tão poucos os que me rodeiam que pensam com toda a força que isto da livre publicação sem que haja mediação é em si um perigo e em quase nada trás benefícios para a sociedade moderna e no entanto são os primeiros a usar desse direito. Bem, não queria já começar a afirmar pontos de vista mas aqui estou face a face com uma plataforma desenhada para o efeito e até agora ainda não senti nenhuma contra-indicação nefasta.

Natacha Meunier