
Dou por mim espectadora de uma conversa em que a frase é “ a empregada arranhou o fundo da panela, a minha filha quer que a despeça”. A discussão é acesa sobre as incompetências das empregadas e as vantagens e desvantagens de se ter uma cabeleireira a desempenhar a função. “ Partir, não parte nada, mas é tão lenta!” É verídico e aconteceu-me não há muito tempo numa daquelas conversas de circunstância em que eu me esforço mais por parecer interessada no que os outros dizem do que propriamente em acrescentar algo à conversa. Aquela frase ficou-me na cabeça, enquanto aqueles pés de microfone ficavam ali a dispersar-se acerca dos seus problemas de “esgotamento pós-empregada” eu ficava a conter-me entre o riso e o choro. O riso, pelo significado que atribuíam a uma simples arranhadela de panela. O choro, pelo significado que atribuíam a uma simples arranhadela de panela.
Não é estranho serem gastos milhões de euros e milhares de horas a tratar dilemas e frustrações quando até um episódio que envolve panelas e esfregões de cozinha serve para discussões elevadas à décima potência em que o único objectivo é encontrar um problema onde não o há? Nada estranho parece-me. Parece-me precisamente o contrário, que não são aqueles que passam por verdadeiros dilemas e traumas que formam a maioria dos amontoados às portas dos psicólogos ou psicoterapeutas. Quem passou por guerras ou catástrofes naturais é provavelmente quem aprende a enfrentar o infortúnio sozinho. Claro que não podemos pensar em tudo o que está de pior com todos à nossa volta mas fazer da falta de habilidade de uma empregada (que por si só já implica alguma sorte pelo menos a nível económico) um esgotamento nervoso também não é razoável.
Mais do que arranhada aquela panela foi a desculpa para um desabafo de auto comiseração de alguém que naquele momento não teve nada mais pertinente do que o alumínio.
Natacha Meunier
